O tempo passa e foge em passo lento,
teu belo olhar já brilha tão distante;
pergunto ao céu qual é o meu tormento,
se o coração já chora penetrante.

A vida traz o vento em desalento,
levando embora o instante mais vibrante;
em minha dor procuro o fundamento,
mas só me resta a sombra vacilante.
Por que razão desfez-se o claro dia?
Por que teu riso agora se apagou?
Será que a noite eterna o sol cobria?
No peito ardente a mágoa se formou,
mas Deus me guarda em doce companhia,
pois só no Seu consolo encontro amor.
II
Antes, o mundo em luz resplandecia,
tua presença ardia em meu olhar;
tudo era canto, júbilo e harmonia,
tudo era chama pronta a se queimar.

Eu vi teu ser banhado em poesia,
tua beleza pronta a me encantar;
mas como a flor que perde a realeza,
também o brilho começou findar.
Oh, como passa a glória tão ligeira!
Oh, como o tempo toma o seu tesouro!
E a primavera volta derradeira…
Mas sobre o pó se ergue o bem mais puro:
no amor de Deus, que vive e não fenece,
encontro a luz que nunca se entristece.
III
Ainda és bela aos olhos que te veem,
porém já some a força do sentido;
as ilusões ao longe se desfeem,
o coração contempla o não vivido.
No pensamento os sonhos se esvaeiem,
restando só o pranto comovido;
por que teu ser, que outrora foi tão meu,
me deixa agora em luto consumido?

O tempo apaga o som de cada canto,
o rosto perde o brilho em cada cor,
e o peito guarda a sombra em seu recanto.
Mas sobre a dor floresce um novo amor:
é Cristo eterno, abrigo em meio ao pranto,
meu Salvador, meu guia, meu Senhor.
IV
A dor me cobre em noite tão cerrada,
e o coração soluça em desalento;
a vida segue, embora maltratada,
sem ter resposta ao íntimo lamento.

Oh, como é dura a estrada fatigada,
sem ter descanso ao árduo sofrimento!
Mas minha voz se eleva em madrugada,
pedindo a Deus o santo salvamento.
Só n’Ele encontro a paz que me sustenta,
só n’Ele a luz que rompe a escuridão;
minh’alma então de novo se aquienta.
E se a tristeza invade o coração,
a fé segura a dor que se apresenta,
erguendo a cruz em meio à solidão.
V
Gostara eu de ter um doce abrigo,
um leito manso, a sombra para estar;
descanso santo em paz, seguro e amigo,
que venha as dores todas dissipar.

E o Pai celeste estende-me consigo
seu braço forte e pronto a me amparar;
na eternidade encontro o meu caminho,
onde jamais haverá de cessar.
Por que viver com pranto e com saudade,
se a vida é breve e logo passará?
No céu me espera a pura claridade.
Assim minh’alma em Cristo repousará,
na paz eterna, além da tempestade,
no lar divino que jamais findará.

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