I
És mais linda que o cântico dos anjos,
mais suave que o canto do jardim;
superas os alvos lírios e seus arranjos,
brilhas mais do que o sol ao nascer assim.
Quem descreve o fulgor do teu semblante,
ou traduz o calor dos teus carinhos?
Nem poeta nem sábio neste instante
pode igualar-te aos sons dos passarinhos.
Se a manhã desperta e se renova,
também renasce em mim fiel ternura,
meu peito a ti se entrega e te aprova.
E mesmo o adeus que o tempo nos assegura
não vinga, pois meu ser inteiro prova
que o amor é eterno em sua candura.
II
O adeus é vão, vazio em sua essência,
pois eu sou pleno em rios de calor;
nas águas claras flui a consciência
do quanto a vida é feita só de amor.

A cada aurora o peito se derrama,
teu nome brilha em mim como oração,
és chama ardente, és fogo que se inflama,
sustentas vivo o pulsar do coração.
Mais linda és do que a beleza pura,
mais ágil que a mão do artista em cor,
que pinta o céu e o chão na formosura.
Assim te faço templo do louvor,
és minha estrela, luz que me assegura,
és a razão da vida e do vigor.
III
Se um pintor ousar traçar tua face,
faltará-lhe a paleta e a visão;
teu ser é mais do que o pincel enlace,
teu riso é mais do que a imaginação.

Criar, recriar, paisagem sem medida,
não alcança a grandeza do teu ser;
és o milagre oculto desta vida,
és o motivo que me faz viver.
Assim ressoa a música celeste,
que em ti resume o sopro da saudade,
no coração fiel que nunca esquece.
E cada verso escrito em liberdade
é jura eterna, amor que se reveste
da cor dos céus na tua eternidade.
IV
No teu olhar encontro a primavera,
jardim secreto em pétalas de luz;
em cada gesto a paz sincera impera,
em cada beijo o mundo se traduz.

Teus passos leves soam como harpa,
teu corpo dança em ritmos do céu;
minh’alma, ao ver-te, encanta-se e se farpa,
pois toda dor se desfaz no teu véu.
E quando a noite chega silenciosa,
teu nome é chama, é lâmpada acesa,
é flor que exala essência preciosa.
Assim te vejo, em sonho e em clareza,
como a mais rara estrela luminosa,
a conduzir-me em vida e em beleza.
V
Se a eternidade coubesse em palavras,
eu a gravara inteira em teu sorrir;
se houvesse um templo erguido em puras lavras,
seria em ti que iria residir.

Pois és altar sagrado e sem engano,
és melodia em vozes do além;
és esperança em cântico profano,
és tudo aquilo que me torna bem.
No mar profundo és pérola escondida,
no céu imenso és sol que me aqueceu,
na terra és fruto em graça concebida.
Assim te adoro em tudo o que sou eu:
saudade, amor, desejo e nova vida,
pois tudo em mim começa e finda teu.





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