Em tantas vozes, vozes de ansiedade,
Procura o coração a exata senda,
E em meio às sombras, busca a claridade,
Na luz que as trevas tímida desfenda.
Palavras tantas, vãs, sem identidade,
Pensamentos dispersos, sem oferta,
Mas sempre ansiamos por eternidade,
Na chama oculta que em nós se estenda.
E assim vagamos pelas madrugadas,
Por entre sonhos, dúvidas caladas,
Buscando a vida, a paz que não se inventa.
Pois na procura, em ânsia verdadeira,
O coração se curva à derradeira
Vontade pura que no céu se assenta.
II
Houve um tempo que o tempo já levou,
Um tempo ausente, quase fugitivo,
Em que o pensar, qual brisa, se formou
Num sopro incerto, frágil, transitivo.

E nesse instante o espírito ficou,
Qual peregrino errante, pensativo,
Que busca o rumo e nunca o encontrou,
Na estrada escura, fria e sem motivo.
Mas mesmo o vento, quando tudo invade,
Não rouba a fé da nossa eternidade,
Nem apaga a centelha que persiste.
Assim recordo a névoa do passado,
Que em mim deixou o peito dilacerado,
E fez da dor um canto que resiste.
III
No meio de perguntas infinitas,
Silêncio se ergue em forma de resposta,
E as almas, nas angústias tão restritas,
Vertem seu pranto em lágrima que encosta.

Pois quantas vozes mudas e contritas
Falam no peito em dor que nunca gosta,
E as horas, quando lentas, são malditas,
Na solidão que a vida nos imposta.
Mas entre o choro nasce a compreensão,
Que é no sofrer que o homem faz canção,
E aprende a ver no céu nova alvorada.
Assim o pranto, outrora tão profundo,
Se faz oração, clamor de todo o mundo,
Na fé que vence a estrada desolada.
IV
Caminhos tortuosos nós trilhamos,
Sem norte, sem destino, sem guarida,
Qual quem na treva vaga sem reclamos,
Temendo nunca ver a luz da vida.

Nas sendas ásperas todos caminhamos,
Carregando o peso da ferida,
Mas mesmo assim, ainda que erremos,
A alma insiste e segue resolvida.
Pois mesmo à noite escura e sem luar,
O coração não deixa de esperar
Um novo sol que nasça sobre a estrada.
E quando a dor parece ser final,
Descobre o homem em fulgor real
Que a esperança é estrela iluminada.
V
E foi na busca intensa de existir
Que o teu olhar brilhou no meu caminho,
E pude então no peito redescobrir
Que nunca estive só, nem tão sozinho.

Ali compreendi, sem resistir,
Que o teu amor guiava o meu destino,
E desde o início estavas a sorrir
No fim da estrada, em gesto cristalino.
Do princípio ao fim, jamais partiste,
Na eternidade sempre tu existes,
Presença oculta em tudo quanto sou.
Assim descanso em paz no teu querer,
Pois sei que és vida, essência do viver,
E em ti repousa o sonho que ficou.

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